Se você é daqueles que, quando o computador apita, apita junto, trate de resolver logo sua incompatibilidade tecnológica. Ela vai pesar cada vez mais contra você
A alfabetização tradicional começa na sala de aula. A proficiência digital também. Todos concordam: escola que é escola tem tecnologia. Tem computador. Virou até assunto de campanha eleitoral. Na recente disputa pela Prefeitura de São Paulo, a atual prefeita, Marta Suplicy, deu ênfase à democratização do acesso à internet. Argumentou que a familiaridade com o uso de programas de computador e com a navegação na web são fundamentais para que o cidadão possa competir no mercado de trabalho.
Em linguagem pedagógica e informatiquês, Marta referia-se à media-literacy, computer-literacy e profetizava as vantagens do cidadão internet-wise. Literacy se traduz, ao pé da letra, como alfabetização. Media ou computer-literacy significam familiaridade com as novas mídias e com o computador. Ser internet wise seria literalmente traduzido como ser “sábio em internet”. É o sujeito “escolado”, que “se vira bem” na web. Você precisa ser competente para recuperar, selecionar e consumir informação que é disponibilizada em mídias diferentes das tradicionais. Ou você atinge um patamar mínimo ou está fora da corrida pelo conhecimento deflagrada pela era do e-learning – um jeito bonito de dizer “educação pela internet.”
Se todos nós sabemos como escolher um livro ou uma revista – olhamos a capa, conhecemos o autor ou a editora, pensamos no preço –, como é que selecionamos essa informação disponibilizada em novas mídias? Como você escolhe os melhores sites, os melhores cursos online ou o melhor software para os seus alunos? Se você é estudante, por onde começa aquela pesquisa que o professor pediu? E onde você vai buscar a informação para responder àquela perguntinha do seu filho sobre o El Niño? Enfim, como é que você se torna um consumidor competente e eficiente dos recursos das novas tecnologias da comunicação?
Não há uma receita. Michael Simkins, coordenador do premiado projeto Challenge 2000 Multimedia (que ajuda estudantes de primeiro grau na Califórnia a construírem ferramentas multimídia de ensino, www.jointventure.org/initiatives/ 21st/multi.html), disse que uma das melhores formas de selecionar um produto é perguntar para colegas e amigos. “Não é muito diferente da estratégia que você usa para comprar seu computador ou seu carro novo. Você pede a opinião de quem já comprou e depois põe preço, qualidade e praticidade na balança.”
Mas mesmo “perguntar por aí”, em épocas de media-literacy, assume novas formas. Não é só ir bater à porta do vizinho, ou telefonar para um amigo ou professor. Isso também, mas é preciso já ser meio alfabetizado digital para se tornar mais alfabetizado digital. Para esses é que existem sites de orientação. Aí tem de tudo: sites mantidos por especialistas, por grupos de pressão, por usuários (furiosos ou felizes), por malucos etc. Para tentar achar o que interessa, você pode ir direto à rede e procurar por palavras-chaves, por exemplo, no Google (www.google.com). Mas prepare-se: uma pesquisa pela expressão “media-literacy” devolve a você 46 900 páginas da rede!
Existe, no entanto, uma forma mais eficiente: você se junta a um grupo com os mesmos interesses. São as listas eletrônicas. Elas também são mantidas por todo tipo de gente, mas tem algumas que valem a pena. O mecanismo é o seguinte: você manda um e-mail para um endereço determinado e passa a receber em seu endereço eletrônico as mensagens de todo mundo que se inscreve na lista. Mas cuidado aqui. Existem basicamente dois tipos de listas: as mediadas e as livres. Nas primeiras, um ou mais mediadores lêem todas as mensagens que são mandadas todos os dias e filtram as mais interessantes. Você só recebe a nata da discussão. Nas livres, você recebe tudo o que qualquer um resolve escrever. É uma experiência assustadora. Um dia pode significar duas ou três centenas de mensagens novas invadindo seu micro.
Existem várias listas na área de tecnologia e educação. Uma delas é a WWWEDU - The World Wide Web and Education Mailing List, coordenada por Andy Carvin, conhecido especialista em política educacional e reforma do ensino. Para assiná-la, mande uma mensagem para listproc@ready.cpb.org.
Mas o que define essa nova alfabetização é mesmo a capacidade de participar. Segundo Bonnie Bracey, diretora e fundadora do Online Internet Institute, “as crianças se tornam arqueólogas da informação e querem trocar experiências”. Ou seja, como em tantas outras áreas, o importante é querer aprender a aprender. E os meios eletrônicos estimulam isso. São tantos os sites e listas nas quais se pode procurar por informações, que, antes de mais nada, é preciso fazer, como Bonnie sugeriu, arqueologia.
Para os novos arqueólogos, as possibilidades que se abrem são então imensas: desde o uso de programas de correspondência, em que estudantes de diferentes partes do mundo usam o e-mail para se comunicar, enviar informação, som e imagem, até grandes redes entre escolas e suas comunidades. Um exemplo é a International School CyberFair (a Cyber-Feira Escolar Internacional – www.lightspan.com/cyberfair), uma atividade que vem ocorrendo desde 1996, patrocinada pela Cisco Systems e pela Global SchoolNet Foundation. Trata-se de uma feira virtual na qual crianças desde a pré-escola até o segundo grau, de várias partes do mundo, são convidadas a criar websites sobre suas comunidades.
O lado do desenvolvedor
Com tanta coisa por aí no ciberespaço, fica mesmo difícil o trabalho desses novos arqueólogos. E é claro que, assim como acontece com os arqueólogos do mundo real, o que vai atrair a atenção são os tesouros mais valiosos e brilhantes. Qual o lugar que Indiana Jones escolheria para entrar? Um de fácil acesso, que promete muito ouro e grandes descobertas ou um escondido, difícil, que exige muito equipamento especial e parece prometer pouco? Bom, talvez o Indiana Jones do cinema preferisse o mais difícil, mas os de verdade querem mesmo é facilidade.
Os Indianas Jones da internet também buscam simplicidade, organização e promessa de informação com alta qualidade. E aí mora um problema adicional. Os criadores de sites (e de CD-ROMs ou DVDs) sabem disso e vão procurar sempre criar essa sensação, tenham ou não o que dizer. Lembre-se de como se compra um livro. Não basta analisar a capa, a editora, o título, o formato, nem mesmo o nome do autor. Só uma avaliação de tudo dá alguma chance de acerto. No caso dos sites, pouca ou nenhuma informação (ou informação de péssima qualidade) pode estar mascarada por interfaces bonitas, menus inteligentes, imagens cativantes. Por isso, cuidado.
Em todo caso, gente competente faz as coisas direito do início ao fim. Portanto, se um site segue algumas regras básicas da criação inteligente, provavelmente tem mais chances de ser bom.
Jason Nugent, programador do servidor e administrador do www. stomped.com, um site de avaliação de games e software, deu algumas dicas: “O bom software precisa atender a uma necessidade específica, não pode ter bugs e deve ter uma interface fácil de usar”, explica. O que vale para softwares, claro, vale para sites. Mark Hurst, fundador e presidente da Creative Good, uma empresa especializada na avaliação de serviços oferecidos pela internet, diz que “o bom site é aquele ao qual o usuário volta sempre”. E completa: “E ele não volta se o site der mensagens de erro, tiver longos textos de instrução, tiver muitas bobagenzinhas que tiram a clareza da página, ou tiver erros tipográficos”.
Não são dicas definitivas, mas ajudam um bocado. Em todo caso, como tem gente que gosta de aprender pelo lado negativo, uma verdadeira escola de internet errada é o site Bud Uggly. Trata-se de um grupo norte-americano que se dedicou, até 1999, a fazer o “site mais horroroso do mundo”. O resultado de seus esforços pode ser apreciado em www.wackyadvice.com/bud, onde toda besteira possível de ser feita em um site é perpetrada, e com absoluta falta de estilo. E não tem erro. Se você ficar (um pouquinho só) chocado com Bud, estará salvo, já pode dizer que não pertence ao grupo dos analfabetos digitais. Desse momento para frente, a internet é sua.
Projetos como o Multimedia Art Class e o Sr. Merritt fazem parte do grande projeto Challenge 2000, que reúne empresas e escolas do Vale do Silício, na Califórnia, Estados Unidos, e tem por objetivo desenvolver a educação em todas as cidades do vale usando ferramentas de web e de multimídia
Bud Uggly (literalmente, “o amigo feioso”, mas escrito errado) foi construído para ser o site mais feio do mundo. Suas atividades terminaram em 1999, mas os documentos são mantidos pela Bud Uggly Foundation. Além da home page, o site traz amostras de trabalhos para clientes (falsos, claro), dicas de design para web e muito mais. www.wackyadvice.com/bud