
Anna, Estou saindo há dois meses com um cara bonito e bacana. Ele só tem um defeito: é pobre. Na nossa primeira noite juntos, paguei o motel. Se eu quiser fazer algum programa, tenho que pagar a conta para os dois. Planos como viajar ou mimos como ganhar um presentinho fora de hora estão fora de cogitação. Não é que ele não trabalhe: o problema é que ele ganha muito mal. Gosto dele, mas essa situação está me incomodando. O que faço? Bel Ok. Vamos ser francas. A gente até encara dividir a conta. Ou pagá-la inteira quando o relacionamento é longo e isso fica natural, ou a situação é extraordinária, tipo ele está sem grana esta semana. Mas fazer isso sempre, por mais feministas que possamos ser, é broxante. Por que será?Desde que o mundo é mundo, as mulheres procuram o macho alfa. Aquele que será capaz de prover e garantir a nossa segurança e a da prole, em caso de necessidade. Esse papo do tempo das cavernas parece absurdo nos dias de hoje, mas é só olhar para o seu currículo: quantas vezes você manteve um relacionamento duradouro com alguém de um nível social abaixo do seu? Aposto como foram raras, se é que foram.
(Claro que há exceções. Minha amiga Silvana viaja pra Europa todo ano, e só se apaixona por garçons. Mas isso é outra história.) É natural que a gente se interesse por caras que estejam no mesmo patamar que a gente. Não pelo dinheiro em si, mas porque ele significa também que provavelmente vocês vieram do mesmo lugar, tiveram uma formação parecida, têm experiências em comum. E é infinitamente mais fácil se relacionar com quem é semelhante a gente. E é natural também que a gente se interesse por caras que estejam em um patamar acima da gente. Não pelo dinheiro em si, mas porque sucesso é algo sedutor, assim como as coisas que o dinheiro pode comprar: conforto, experiências como uma viagem, mimos como um presente fora de hora. Interesseiras? É claro que sim: quem não se interessa por uma vida mais fácil e divertida? Contanto que esse não seja o único motivo para se estar com alguém e venha acompanhado de outros sentimentos, como amor e respeito, não há por que se envergonhar. Mas o que realmente pega é outra coisa. Vou te contar uma história. Uma vez, minha amiga Luísa encontrou um cara na balada. Lindo de morrer, era guitarrista da banda que estava tocando. Sexy, engraçado e muito a fim dela, deixou a moça encantada. Ficaram, naquela e em outras noites. Até que numa, o cara convidou minha amiga para dar uma esticadinha no apartamento dele. E foram. Passo a palavra pra Luísa contar o que aconteceu: "Quando ele abriu a porta, tive um choque. O cara morava numa quitinete minúscula e bagunçada, com um colchão de solteiro velho jogado no chão, coberto com uns lençóis muito suspeitos. Perguntou se eu queria tomar alguma coisa, e aceitei. Ele abriu um isopor que estava num canto e brincou, antes de tirar uma garrafa de Coca com água: "Ah, essa é minha geladeira". Bebi no gargalo, porque ele não tinha copos, e pedi pra ir ao banheiro. A privada ficava dentro do chuveiro e o papel higiênico era desses cor-de-rosa mais vagabundos. Quando saí, pedi desculpas e fui embora. Podem me acusar de ser superficial, mas broxei de ver a pobreza dele. Eu também vim de baixo e me mato de trabalhar pra ter um cantinho legal. Não poderia admirar alguém que não se esforça tanto quanto eu." Suspeito que seja esse o grande problema dessas relações financeiramente desequilibradas. Mais do que a falta de dinheiro, o que incomoda é não conseguir admirar o outro. Ok, ele é pobre de nascença, trabalha desde cedo e não teve muitas oportunidades. Mas se dá um jeito de estudar, faz um bico pra te levar ao cinema, dribla a falta de grana com criatividade e se esforça para sair de onde está, ao mesmo tempo em que faz o melhor com o que tem... Bem, esse tipo de cara pobre é rico em tantas outras coisas que a gente até esquece a condição - e não se importa em pagar o jantar. Agora, se seu querido está acomodado na vida e não se importa em ser sustentado, não há paixão que agüente muito tempo. Sabe, Bel, talvez seja caso de conversar. Também não deve ser fácil se sentir por baixo o tempo todo. Quem sabe se você mostra as coisas boas que tanto gosta nele, e sugere onde ele pode melhorar? Às vezes, é só questão de um empurrãozinho para a pessoa acreditar no seu potencial e agarrar as oportunidades. Se ele se interessar - por melhorar a própria vida e, em conseqüência, a de vocês - acho que você desencana desse detalhe das contas. Agora, se ele continuar parado, não se sinta culpada e caia fora. Há muitos modos de ser uma boa samaritana. Não precisa ser com o namorado.
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